O prazo que aperta Estados Unidos e Irã - Resenha crítica - 12min Originals
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O prazo que aperta Estados Unidos e Irã - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

O impasse entre Washington e Teerã tem data marcada. Em junho, os dois países fecharam um memorando de entendimento que abriu um período de 60 dias de negociação, e esse prazo vence em 17 de agosto. No dia 12 de agosto, uma fonte iraniana graduada disse à Reuters que não havia nenhuma conversa em curso com os americanos sobre prorrogá-lo — Teerã, segundo essa fonte, via "nada a estender". No centro da disputa está o Estreito de Hormuz, o canal estreito por onde escoa parte relevante do petróleo do Golfo Pérsico, hoje fechado à navegação normal, e um bloqueio naval americano aos portos iranianos que o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou a jornalistas que pode ser mantido por tempo indefinido.

O prazo que ninguém confirma estar negociando

O memorando previa 60 dias para negociar, e o relógio corre sem que nenhuma das partes confirme uma conversa para estendê-lo. A Fox News registra relatos conflitantes sobre americanos e iranianos estarem falando por meio de mediadores, mas a única declaração atribuída a uma fonte iraniana graduada, publicada pela Reuters em 12 de agosto, nega que exista discussão sobre prorrogar o acordo.

Do lado iraniano, as condições foram colocadas por escrito. Em 8 de agosto, Mohammad Baqer Zulqader, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, listou à agência estatal IRNA seis exigências de "correção de comportamento" dos Estados Unidos antes de qualquer reabertura de Hormuz: parar as ameaças e as ofensas ao que descreveu como as coisas sagradas do país, encerrar a ação militar contra o Irã e seus aliados no Líbano, nos territórios palestinos, no Iêmen e no Iraque, suspender o bloqueio naval, retirar forças navais e aéreas americanas da região, pagar indenização por danos de duas guerras e liberar sem condições os ativos iranianos congelados. "Até que os Estados Unidos corrijam seu comportamento, o Estreito de Hormuz não será aberto", disse Zulqader.

No dia seguinte, o chanceler iraniano Abbas Araghchi afirmou que as exigências já tinham sido enviadas aos Estados Unidos e que um acordo com Omã definindo novas rotas de navegação no estreito estava em fase final. Ainda assim, Teerã repetiu que a passagem só volta ao normal se as outras condições forem atendidas.

"Controle total" contra "permanece bloqueado"

Em 11 de agosto, Donald Trump escreveu na Truth Social que "os Estados Unidos têm controle total sobre o Estreito de Hormuz" e acrescentou: "ACHO QUE VAMOS FICAR COM ELE!". No mesmo texto, disse que o bloqueio naval americano está sendo chamado de "uma parede de aço", que o Irã não tem Marinha nem Força Aérea, que a Guarda Revolucionária (IRGC) está "dizimada" e que o país convive com "inflação de 300%".

A resposta veio da Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (PGSA), órgão criado pelo Irã em maio para coordenar a passagem de navios pelo estreito e cobrar pedágio. "Alegações e postagens repetidas de autoridades americanas de que o Estreito de Hormuz não está mais bloqueado não mudam a realidade: o Estreito de Hormuz permanece bloqueado e não será reaberto até que as condições do Irã sejam aceitas", publicou a autoridade no X.

Os números do bloqueio vêm do CENTCOM, o comando militar americano para o Oriente Médio. Em 9 de agosto, dizia ter redirecionado 55 navios comerciais, desabilitado dois e abordado dois; em 12 de agosto, os números eram 59 redirecionados, três desabilitados e dois abordados. O comando afirma manter mais de 20 navios de guerra na região, entre eles o porta-aviões USS George H.W. Bush.

Do "semi-negociando" ao "isolamento nunca visto"

Em 9 de agosto, Trump descreveu ao site americano Axios uma postura deliberadamente contida. "Estamos em tom baixo", disse. "Estamos apenas semi-negociando com eles. Estamos só observando o Irã com sua inflação enorme e o fato de que eles não têm dinheiro." Naquela entrevista, sustentou que a pressão econômica, e não novos ataques, levaria Teerã à mesa.

Nos dias seguintes o vocabulário mudou. Hegseth disse que as forças americanas podem manter o bloqueio dos portos iranianos indefinidamente. E o secretário do Tesouro, Scott Bessent, em entrevista ao canal americano Newsmax, anunciou novas medidas voltadas ao "isolamento econômico" do Irã que, segundo ele, "nunca foram vistas".

A leitura de que o aperto econômico é o instrumento principal aparece também fora do governo. A analista de segurança nacional Rebecca Grant disse à Fox News que o bloqueio "está realmente apertando o Irã" e o classificou como "a medida diplomática mais eficaz deste conflito até agora", citando o terminal de Kharg Island, por onde o país carrega 90% de seu petróleo, hoje praticamente às escuras. O vice-presidente JD Vance afirmou que Washington vai "continuar aplicando a pressão que pode aplicar".

Do lado iraniano, a aposta declarada é de resistência. Mohammad Reza Naqdi, principal assessor do comandante da IRGC, disse à PBS que uma das opções é "prolongar esta guerra até chegarmos ao próximo mandato presidencial e causar desgaste". O general da reserva Jack Keane, analista da Fox News, avaliou que Teerã pode ficar mais agressivo por acreditar que Trump evitará ação militar antes das eleições de meio de mandato.

O primeiro preço que os mercados já pagam

O impasse já aparece nos preços antes de qualquer decisão militar. Na sexta-feira, depois da fala de Bessent e do anúncio de bloqueio indefinido, o rendimento do título do Tesouro americano de 10 anos — referência para o custo de endividamento do governo dos Estados Unidos — subiu cerca de 5 pontos-base, para 4,692%. O de 2 anos avançou 2 pontos-base, a 4,161%, e o de 30 anos subiu mais de 5 pontos-base, a 5,267%. No mesmo dia saíram dados fracos de consumo: as vendas no varejo caíram 0,6% em julho, quando economistas ouvidos pela Dow Jones esperavam alta de 0,1%. Estrategistas do banco ING escreveram que os dados de inflação da semana foram contidos e "muito bem-vindos para os Treasuries", mas que a pressão por juros mais altos "está longe de ter desaparecido".

No petróleo, o movimento é de piso, não de pânico. Em 12 de agosto, o Brent fechou em alta de 7 centavos, a 88,98 Dólares o barril, e o WTI americano subiu os mesmos 7 centavos, a 83,27 Dólares. Dias antes, com a notícia do acordo com Omã, os dois contratos tinham subido pouco mais de 1%. Dorian Carrell, do gestor Schroders, disse à Reuters que o cenário-base da casa é "uma desescalada gradual, mas confusa", e que a expectativa de que o tráfego pelo estreito não volte à capacidade total "coloca um piso no preço do petróleo". A Agência Internacional de Energia, em seu relatório de agosto, reduziu a projeção de demanda global no segundo semestre por causa do fechamento do estreito e afirmou que "a urgência de reabrir o estreito aumentou", já que os estoques disponíveis estão se esgotando rapidamente.

Houthis, um novo pacto e a saída do Iraque

Em volta do impasse, três movimentos mudaram o tabuleiro. Os houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, prometeram fechar o estreito de Bab el-Mandeb, na entrada do Mar Vermelho, por onde a Arábia Saudita exporta até sete milhões de barris de petróleo por dia. No último mês atacaram navios de bandeira saudita, e em 13 de agosto um cargueiro egípcio foi atingido, com pelo menos quatro tripulantes mortos. O general da reserva Ken Ekman, ex-coordenador do Departamento de Guerra para a África Ocidental, disse à Fox News que os houthis estão montando uma segunda frente que "distrai os Estados Unidos e estica nossos ativos".

Em 7 de agosto, Arábia Saudita, Turquia e Paquistão assinaram em Meca um acordo de defesa conjunta segundo o qual um ataque armado contra um país será tratado como ataque aos três. O chanceler turco Hakan Fidan disse que o texto é "tecnicamente o mesmo" que o artigo 5 da OTAN, ressalvando que a forma da ajuda será discutida caso a caso. E os Estados Unidos confirmaram que retirarão suas últimas tropas do Iraque até 30 de setembro, encerrando uma presença iniciada com a invasão de 2003.

O que fazer com essa informação

O marcador mais objetivo dos próximos dias é o calendário. Vale observar se, antes de 17 de agosto, alguma das partes confirma conversas para estender o memorando — até agora nenhuma fonte iraniana ou americana confirmou — ou se o prazo simplesmente expira sem acordo e sem substituto. Um segundo ponto a acompanhar é se as medidas de "isolamento econômico" anunciadas por Bessent se materializam em sanções concretas e nomeadas, ou se permanecem no anúncio; e se o bloqueio "indefinido" descrito por Hegseth muda em escala, o que aparece nos boletins do CENTCOM sobre navios redirecionados, abordados e desabilitados. Terceiro, os dois indicadores que já se movem sem que nada tenha sido decidido: o rendimento dos títulos americanos de 10 anos e os contratos de Brent e WTI, que reagiram a cada declaração desta semana. E há a frente alternativa: se a pressão sobre Hormuz perder força de barganha, analistas ouvidos pela Fox News esperam mais atividade houthi no Mar Vermelho — o que se verifica olhando os ataques a navios em Bab el-Mandeb, não os comunicados sobre Hormuz.

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